quinta-feira, janeiro 30, 2003


O homem que vendia cartas marcadas

Andava pelas ruas do centro, com aquelas roupas que se usa para vender alguma coisa, aquelas com mensagens na frente e atrás. Anunciava vender um baralho com cartas marcadas, pronto para pequenas, médias e grandes trapaças.

Ninguém se aproximava dele. E ele ainda sim caminhava pelas ruas despertando curiosidade e medo. Com seu olhar cintilante ia percorrendo caminhos da cidade.

Acreditava piamente na vitória, mesmo com recursos vergonhosos. Sim, ele era um homem que, à sua maneira, queria ensinar às pessoas como vencerem.

Esse homem é uma das figuras das ruas, assim como a pequena senhora idosa com casaco de lã vermelho, cabelos brancos e sorriso pronto para vender trufas, assim como o homem apressado que vende um único vaso com orquídea, ou como o vendedor que esparrama sobre uma colcha no chão lamparinas de ferro cilíndricas ou perversamente triangulares, que se sustentam melhor sobre a base.

Todos transitando pela vida, caminhando, oferecendo, entregando, apressadas, lentas, pedindo, comprando, tentando, errando, roubando, deixando, observando.

Quando um dia trombei com o homem das cartas marcadas e ele me olhou fixamente em meus olhos, mirou, senti a profundeza daquele olhar atravessando todas minhas cartas marcadas, minhas nuances escondidas em cada esquina da minha alma .. e aquele homem que conhecia os segredos da cartas, os segredos da cidade, não disse nada enquanto fitava-me por um minuto, talvez.
E como se não fosse dizer nada, expressou as seguintes palavras com movimentos labiais que quase não percebi:

- Gosto de ambientes estranhos e você me faz sentir isso. A estranheza é a ordem das coisas quando deixamos de enxergar de forma repetitiva. Não quero teu sorriso ou tua compreensão, misericórdia desconheço.











Rapport

significa estar na mesma frequência que o outro. Harmonia, afinidade, sintonia, compreensão. Para estabelecer rapport, deve-se usar a empatia. Nunca confrontar diretamente as idéias, crenças ou convicções do outro. Primeiro, crie harmonia e afinidade aceitando e compreendendo o modelo de mundo do outro. Só depois apresente suas idéias e opiniões. Compreender é uma das mais poderosas formas de estabelecer o rapport. A pressão gera resistência e quando o indivíduo sente-se pressionado, há uma grande possibilidade de que reaja de forma obstinada, defendendo seus argumentos e fechando-se para a comunicação.

quarta-feira, janeiro 29, 2003


alma brilhante

brilhar pra sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar
que tudo o mais vá pro inferno
este é o meu slogan
e o do sol

Maiakovski
Alma brilhante, exposição pele, alma no CCBB
primeiro beijo

“Alex tirou as chaves do bolso direito da calça e abriu a porta do carro. Entraram. O forte cheiro dos bancos de couro misturou-se ao perfume que ela usava e, enquanto o carro esquentava, o barulho nada romântico do motor foi a trilha sonora do primeiro beijo, pouco antes de ser abafado pela voz grava de Marvin Gaye cantando Let’s Get it On. A cena de Manoela conversando sobre sexo com as amiguinhas do colégio veio à cabeça de Alex no breve período em que suas línguas se adaptavam uma à outra.
Recordou com nostalgia o uniformes das meninas da sua escola, as saias azuis plissadas, ligeiramente acima dos joelhos, as camisas brancas de tergal com o logotipo mal costurado do lado esquerdo, as meias também brancas esticadas por toda a extensão das pernas, os sapatos marrons, feios, que mais pareciam sapatilhas de bailarina. Fantasiou também Manoela, alguns anos mais nova, descobrindo o próprio corpo, tirando dúvidas entre um risinho e outro das amigas. Aquelas inocentes menininhas nunca imaginariam que seus corpos de Lolita se tornariam armas num piscar de olhos”.

(Trecho do livro Olhos Cor de Chuva do estreante Felipe Machado, músico)

sexta-feira, janeiro 24, 2003


Governos descobrem no benchmarking uma estratégia poderosa para fortalecer o turismo de cidades

Depois que o mundo corporativo descobriu as vantagens de se acompanhar o trabalho das empresas concorrentes regularmente, com o objetivo de obterem informações capazes de contribuir para a melhoria do seu desempenho, prática conhecida como benchmarking, é a vez de as cidades fazerem o mesmo. A cidade de Shanghai, na China, pretende investir por volta de 2,4 bilhões de dólares nos próximos dez anos para fazer de seu distrito comercial de Nanjing um pólo de atração turística internacional.
Para isso, vem sendo desenvolvida uma pesquisa, a pedido das autoridades, com o objetivo de levantar as atrações de 12 regiões bastante visitadas em todo o mundo, como os Champs-Elysées, em Paris, Oxford Street, em Londres, Times Square, em Nova York, Via Montenapoleone, em Milão, a Ginza, em Tóquio, e assim, identificar as principais necessidades da antiga área comercial. Benchmarking urbano? Isso mesmo, uma estratégia poderosa que, aos poucos, pode ser incorporada por outros países.
O turismo é a grande bola da vez nas economias modernas. Os investimentos nessa área geram mais empregos por dólar investido, contribuindo cada vez mais para o crescimento da economia nacional, são ecologicamente corretos, limpos, duradouros e afetam positivamente a qualidade de vida. O Brasil precisa correr a passos largos para chegar nessa corrida competitiva. Por enquanto, pode-se dizer que ainda estamos caminhando...

quarta-feira, janeiro 22, 2003


Uma boa visão

Por definição, o buscador do bem é aquele que procura e encontra o lado bom em si, nos outros e em todas as situações da vida. Talvez seja verdade que normalmente encontramos aquilo que procuramos. Se nos dispusermos a procurar o mal, há muito dele a ser descoberto. Entretanto, se procurarmos, veremos que há muita bondade esperando por nós. Se procurarmos imperfeições em nós mesmos e nos outros, a busca sem dúvida será um sucesso. Todavia, se procurarmos além das fraquezas e tolices e buscarmos as coisas boas e belas que ninguém conseguiu encontrar, nossa busca será recompensada pelo sucesso. Tudo depende do que procuramos. "Dois homens olhavam através das grades da prisão. Um via o lodo, o outro via a imensidão."

John Powell

terça-feira, janeiro 21, 2003


Amigos loucos e sérios

Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Louco que senta e espera a chegada da lua cheia.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Pena, não tenho nem de mim mesmo, e risada, só ofereço ao acaso.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Marcos Lara Resende

segunda-feira, janeiro 20, 2003


Lisboa

“Levantou-se do banco e começou a andar: Havia um ponto de bondes por perto. Tomou o primeiro, sem perguntar aonde ia. Sentou-se na penúltima fila, ao lado da janela. Com um barulho de ferro velho, o veículo se pôs em marcha... Algumas paradas adiante levantou-se e desceu do bonde. Tomou um táxi e explicou como era o café aonde queria ir. Não guardava nenhum endereço de memória. Usava como referenciais apenas imagens, lugares, cores. Não dava a descrição de cheiros porque não dá para explicar os cheiros. Cheiros e beijos são as coisas mais subjetivas no momento de uma descrição objetiva. De qualquer maneira, o motorista do táxi entendeu. O café ficava em uma ladeira onde outras ladeiras terminavam ou começavam. Eram ruas de armazéns, restaurantes, comércios e muito movimentadas. Á frente do café, umas mesinhas com pára-sol e no meio uma estátua de tamanho natural. A estátua de Fernando Pessoa. O maior poeta da língua portuguesa e possivelmente o mais misterioso de todos os portugueses, sentado naquele café para sempre.”
(J R Duran em ‘Lisboa’, seu livro de estréia).

sexta-feira, janeiro 17, 2003


Casas confortáveis para a vida toda

Novo conceito de arquitetura sugere projetos de imóveis adaptáveis a qualquer tipo de morador, com idéias simples, baixo custo e comodidade (fonte: Diário do Comércio)

Projetar casas adaptáveis às necessidades de todo tipo de morador sem comprometer o conforto e o estilo das construções. Essa é a proposta do Universal Design, conceito arquitetônico internacional que começa a ser conhecido e adotado no Brasil. Por enquanto, o interesse pelo conceito — amplamente difundido em países como Estados Unidos e Holanda — restringe-se a arquitetos que os utilizam em seus projetos. As grandes construtoras de edifícios residenciais ainda não se sentem atraídas por esses imóveis flexíveis. A idéia básica do Universal Design é garantir facilidade para adaptações de uma casa se, no futuro, o morador precisar. Construção de escadas mais amplas e seguras, previsão no projeto de poço para a instalação de um elevador em sobrados, colocação de pisos diferentes e contrastantes nos diversos ambientes do imóvel são medidas que, previstas no projeto, tornam a adaptação de uma casa mais simples e menos custosa em caso de necessidade do morador. E não servem apenas para idosos, mas também para pessoas com dificuldades de locomoção, temporariamente incapacitadas ou com um pouco mais de preguiça mesmo. A intenção é garantir o conforto do morador a qualquer tempo, independentemente de suas condições. Facilidade e custo — "É mais fácil e barato adaptar para o uso de um idoso um banheiro construído de acordo com esse conceito do que derrubar as paredes de um banheiro tradicional para colocar uma porta por onde uma cadeira de rodas possa passar", explica Sandra Perito, arquiteta que já utiliza o conceito em seus projetos. Segundo ela, a idéia atrai principalmente quem constrói um imóvel e pretende ocupá-lo para o resto da vida. "Mas os espaços deixados para as adaptações não prejudicam esteticamente o imóvel, que pode facilmente ser vendido ou alugado se o proprietário precisar", afirma Sandra. Já foram cinco as casas construídas com base em projetos da arquiteta em São Paulo. Um deles é a casa da dona-de-casa Maria Luiza Marcondes, de 68 anos. Depois de acompanhar as dificuldades dos sogros e da mãe (que morreram com mais de 90 anos) em suas próprias casas, ela percebeu que seria melhor morar em imóvel mais confortável. O marido, engenheiro, gostou da idéia, venderam a casa em que moravam e contrataram Sandra para projetar a nova. Idéias simples — Na residência de Maria Luiza já há algumas adaptações feitas e outras possíveis. A cozinha da dona-de-casa não conta com gabinete embaixo da pia — a intenção é que alguém que esteja em cadeira de rodas possa utilizar a pia sem problemas. No banheiro, os registros de abertura do chuveiro foram instalados ao lado e não abaixo da ducha, como normalmente acontece. Isso evita que, ao abrir os registros sem poder afastar-se deles rapidamente, um idoso se queime com a alta temperatura da água que pode sair do chuveiro. De acordo com a arquiteta, a maior parte das adaptações baseia-se em idéias simples e de baixo custo. Ainda no banheiro (que divide com a cozinha a fama de palco da maior parte dos acidentes domésticos), o tradicional box de vidro foi substituído por uma prosaica cortina de plástico. O conceito de segurança, nesse caso, encaixa-se tanto para idosos e pessoas que têm dificuldade de locomoção quanto para jovens e crianças — ninguém está livre de escorregar, quebrar o box e machucar-se com o vidro. "Outra idéia simples e fácil de executar é a instalação de tomadas a 45 centímetros do chão, mais do que os 30 centímetros habituais. Isso evita que as pessoas precisem se abaixar muito para mexer na tomada, além de afastá-la um pouco mais das crianças". Pouca difusão — Para a arquiteta, o conceito do Universal Design é pouco difundido no Brasil porque as pessoas acham que o que foge do padrão fica caro. "Na realidade, caro e quase inviável financeiramente é adaptar uma casa comum às necessidades de morador com dificuldades físicas. Mas o importante é que o conceito já chegou aqui e só tende a se espalhar", diz. Segundo ela, ainda é pequeno o interesse das empresas do setor imobiliário pelo assunto, mas já há uma construtora interessada em estudá-lo. "Talvez quando a adaptabilidade for vendida pelo mercado como um diferencial dos imóveis a idéia vá adiante no Brasil", afirma a arquiteta.


quinta-feira, janeiro 16, 2003


o órgão

(trecho de entrevista da Isabel Allende, à revista Playboy)

PLAYBOY – Em Afrodite você diz que o latin lover é mau amante – sabe dizer coisas mas fica nas palavras.
ISABEL – Para o amante latino o que importa é o número. Não é a qualidade da relação, é quantidade de relações. Ele acha que quanto mais mulheres tiver, mais sábio será. Dizer que o amante latino é mau amante é uma generalização grave, admito. Mas é certo que um homem, quando muito machista, é muito mau companheiro de cama. Antes de mais nada, porque conhece pouco a mulher. O que lhe interessa é o corpo dela. Esse homem desconhece a imensa potencialidade da imaginação, da mente, da memória. Uma mulher satisfeita na cama não está satisfeita apenas no plano sexual. Sente-se considerada como ser humano, sente que um se complementa com o outro, que há cumplicidade, conversa, desafio intelectual.

PLAYBOY – Não é apenas físico.
ISABEL – Certamente não! O jogo da sexualidade é muito mais complicado. Por isso a sexualidade humana é diferente da de qualquer outro animal. Nossa sexualidade é diferente, porque para nós ela pode ser desastrosa. E o mesmo ato pode ser de brutalidade ou de extraordinária ternura. Com os animais não é assim, com eles é sempre da mesma maneira. Para nós, pode ter toda essa gama, porque ali está a mente. O grande órgão sexual é a mente! Por isso, um grande amante é alguém que entende a mente do outro.


quinta-feira, janeiro 09, 2003


Revista Simples

para quem acompanha o mercado editorial e conheceu a revista Simples, uma triste notícia: seu editor e idealizador Alê Faljone, faleceu em dezembro passado. uma revista bacana, com proposta inovadora e alternativa no Brasil. Uma perda. Para saber mais, leia a crônica do Ronaldo Bressane, clicando aqui.


quarta-feira, janeiro 08, 2003


sentimentos e oferendas

tempos bicudos de cólera armazenada no intestino DELGADO dos homens.
cães ladrando como coiotes ferozes soltos nos pátios das delegacias.
passatempos inúteis para pessoas que se acham invertebradas em suas pseudo-cadeiras de rodas.
porcaria das coisas que são jogadas fora, armazenadas em reluzentes sacos pretos de lixo nas calçadas.
café torrado, moído e coado tomado, na boca, cobrindo o sabor refrescante dos incríveis cremes dentais.
gosto industrializado das frutas, aromas, essências e especiarias criando vida artificial.
horas passadas sem sentido, sem desejo, sem amor, sem cuidado.
o pão da manhã de todo dia de manhã faz a vida florir em qualquer estação.




preciso, exato

é preciso
ser precioso,
sem ser presunçoso.

não ser ocioso
para não deixar de notar o precioso.

o precioso é quase único,
quase formoso.

perto do precioso,
aonde podemos estar.


terça-feira, janeiro 07, 2003


pensamento do dia

a verdadeira liberdade, consiste em seguir as suas escolhas e não os seus impulsos.

segunda-feira, janeiro 06, 2003


Toques de Mudanças (revista da Folha, 5/01)

CLÁSSICOS NO PALITO

Deixe crescer a barba. Se isso for impossível, por questões práticas ou genéticas, tenha sempre uma boa explicação à mão.
Não, repito, não acredite que o melhor do piercing no pênis é quando inflama.
Dedique-se aos clássicos: Sófocles, Virgílio, Shakespeare e, entre os picolés da Kibon, o de coco.
Fora isso, improvise.

Luís Fernando Veríssimo, 66, escritor, autor de "Todas as Histórias do Analista de Bagé" (Objetiva)

COLHA O TEMPO QUE FOGE

Só posso enunciar minha mínima sabedoria que se resume em duas frases latinas: tempus fugit, o tempo foge. O tempo que foge nos fala da morte. Só mudamos de vida quando percebemos que a morte está à espreita, não há tempo a perder, é preciso agarrar o essencial. E carpe diem, colha o dia, como se fosse um fruto. Maduro hoje, podre amanhã: já que a morte está à espreita e o tempo foge, é preciso viver o presente intensamente. O momento é a única coisa que possuímos. Último conselho: não perca tempo dando conselhos... Conselhos de sabedoria são inúteis. Só o toque da morte nos desperta para a razão...

Rubem Alves, 65, educador, psicanalista e escritor

ALTIVEZ FELINA

Adote um par de gatos. De preferência, um casal, que poderá render outros casais. A tolerância dos gatos pode nos ensinar a viver melhor em todos os anos de nossas vidas. O gato atua de maneira altiva e consciente, ao contrário daquele seu outro colega, totalmente subserviente ao homem.

Ruy Castro, 54, escritor e jornalista, autor de "Mau Humor - Uma Antologia Definitiva de Frases Venenosas" (Cia. das Letras)

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